Toda vida é um início

De coisas que desconhecemos

Essa semana a mídia divulgou um triste caso. Uma menina de 9 anos que era violentada sexualmente pelo padrasto, engravidou de gêmeos e foi forçada a abortar os bebês. Um arcebispo da Igreja Católica se manifestou indignado e citou a excomunhão do médico e daqueles que participaram do aborto. Formou-se rapidamente uma mobilização através de notas em jornais e televisão, rádio e outros meios, para apedrejarem verbalmente o arcebispo de Recife, fazendo uso, em maioria, de uma moral particular inconstante e incerta.

Esses que atiram pedras, na ausência dessas, sem perceber, atiram as próprias pernas. Inicialmente, como alguém que vive em sociedade e procurar praticar o necessário para permitir e ter permitido o direito de expressar uma opinião e/ou de ser coerente com suas próprias crenças, comento:

Um arcebispo da Igreja Católica não é apenas aquele alguém que simpatiza com algumas idéias bonitinhas sobre a vida ou que fica no nível superficial do caminho que escolheu. Não se isenta de arcar com o peso que o leva a maturidade necessária para colher os benefícios espirituais de sua fé. Não é alguém que realiza sua crença em uma obrigação ausente, sem estar presente no que ela manifesta, assumindo não mais que um compromisso superficial e inconstante com suas próprias escolhas. Ele é autoridade em sua própria crença. É o primeiro que deve manter-se coerente com as normas de sua escolha pois disso depende, de forma particular e comunitária, a herança em que acreditam ele e aqueles que o respeitam como autoridade. Como tal, manifestou a excomunhão dos envolvidos ativamente no aborto dos gêmeos.

Bastou isso para centenas de pessoas não católicas manifestarem sua revolta e atirarem pedras que parecem estar guardadas em pastas de trabalho, mochilas de faculdade e até mesmo de lancheiras na escola, aguardando, para o caso de não encotrarem alguma pelo chão, o momento de serem arremessadas. Infelizmente o que se mostra, de uma forma geral, é que não existe tolerância com qualquer pessoa ou grupo que se manifeste constante ou ativamente em defesa de sua “causa”. Se um petroleiro vaza no oceano, várias organizações se manifestam em defesa de sua causa, que é a natureza; o mesmo ocorre com os animais. Dever-se-ia entender da mesma forma, ao menos pela saudável tolerância entre direitos legítimos que protegem a liberdades de diferença, que quando se fala em aborto, entre os vários e complicados aspectos que envolvem esse assunto, a Igreja se manifesta como defensora da vida.

Ocorre que, enquanto um movimento, por exemplo, de ativos defensores da natureza, não afetarem a comodidade de decisões particulares daqueles que se colocam com crítico-espectador, nenhuma, ou poucas pedras – para não perder o hábito – serão atiradas.

No tempo atual se projeta na Igreja o grande vilão daquilo por tudo aquilo que não se entende , não se aceita, ou se procura entender de forma descompromissada para evitar ser insensato, já sendo. Dessa forma, se uma autoridade da Igreja abrir a boca, já recebe diante mão umas 10 ou 20 pedradas antes de terminar um simples bocejo.

A Igreja tem sua “legislação”. Elaborada para reger e orientar aqueles que estão no mundo mas vivem segundo a fé em Cristo. Nela está expresso que ações como o aborto implicam em excomunhão automática, ou seja, o fiel que se diz católico e pratica de comum acordo um aborto está sujeito automaticamente a excomunhão. O arcebispo não excomungou, pessoalmente, ninguém. Apenas comunicou a excomunhão pois diziam-se católicos o médico e outros que se envolveram ativamente no aborto. Isso é mais do que necessário para que se faça claro para todos os fiéis que a Igreja não é omissa em defesa de sua causa, como seria se diante da ação direta contra duas vidas, tornada pública pela mídia, silenciasse, fazendo com que a vida em si fosse entendida como um acidente proveniente do acaso e não uma manifestação da vontade de Deus. Ora, se é uma manifestação da vontade de Deus e nós arbitrariamente a controlamos, melhor que se assuma a descrença em Deus e arque com a herança de sua própria crença pessoal, mas não se diga católico.

Diante dessa incongruência, realmente é fundamental o esclarecimento feito com a colocação do arcebispo.

Alguma mãe que ame e cuide de seus filhos aceitaria o testemunho maternal de uma mãe que espanca os seus?. Qual a diferença entre as duas senão o amor em relação a dignidade de uma vida à qual deve instruir e cuidar para que então se torne o que virá a ser? O amor e a caridade são base não apenas da religião Católica, mesmo fora do cristianismo há aquelas que a prezem. Não faltam, entre os compromissados com uma vida mais espiritual do que material, o afeto, o amor, a caridade necessária para acolher e levar dignidade a uma vida, qualquer que sejam os sofrimentos particulares a essa existência. Na natureza desse compromisso toda dignidade se sustenta na palavra “amor”. Aquelas que se fecham a esse entendimento, talvez projetem o amor como algo puramente romântico, não reconhece no amor uma forma, para muitos a única, de transformar qualquer realidade. É de se compreender que, em grande parte, venham a cultivar um pragmatismo necessário para exercer uma “individualidade individualista”, procurando meios que os isentem de uma autocrítica culposa tentando, assim, eliminar de sua realidade a possibilidade daquilo que dá origem a esse sentimento. Defendendo uma idéia incerta sobre o que acreditam apenas para confirmar o que não acreditam, e novamente nisso jogam com as pedras, as pernas, desistem de acreditar que o amor, o afeto, a caridade, fariam toda diferença – e a maior delas seria: acreditar.

Lamentável é que a prática preguiçosa e indolente de uma nociva permissividade conceitual, de uma relativização generalizada, sem origem e sem destino, disfarçada na falsa idéia de uma caridosa compreensão a qualquer coisa, oferecem a muitos como resposta a perguntas incomodas um, “porque não?”. Essa pergunta, quando visa apenas manter a comodidade, se torna um vírus da ignorância geral. “Porque não?“ pode ser o tipo de resposta que se dá quando não se tem qualquer opinião mas se tem antipatia por uma tal em questão. Novamente, com as pedras, jogam suas próprias pernas sem perceber. A falta de cuidado desse comportamento encerra uma ignorância incomensurável.

Em um paralelo, o cidadão comum pode até desconhecer as leis civis que o regem mas estará inexoravelmente submetido a ela. O direito canônico não submete ninguém que não seja católico a suas determinações e conclusões. Ser católico é, antes de qualquer coisa, uma escolha pessoal, particular, não imposta. Assumir compromisso com as próprias escolhas é um gesto de amor consigo mesmo. Em quê, por exemplo, é afetado o cidadão comum não católico, no exercício de todos os seus direitos, a excomunhão do médico e dos envolvidos? Em absolutamente nada. Se é um sentimento de piedade em relação aos excomungados, entende-se porque talvez nem sejam cristãos, pois piedade deveria ser direcionada em forma de amor àqueles que precisam ser acolhidos em seus sentimento e necessidades e não em forma de agressão aquele que supostamente foi um agressor. Mas infelizmente parece mais a necessidade de usar o acontecimento como canal para externar uma raiva latente que, independente do motivo, deixa o ser humano a deriva, em um barco furado, esbravejando enquanto a água entra.

Diante da palavra do arcebispo, que saiu em defesa da vida, expressando assim uma riqueza de amor e caridade, esperança e perseverança incutidos no que sucesse a essa postura, na qual toda vida, através do amor fraterno, encontra dignidade no mundo até que sua existência possa retornar a Deus; diante disso fico me perguntando: Que idéias “inerentes” estão expressando os que saem em defesa do aborto? Que idéias estão expressando os que saem em defesa do aborto? Seria apenas uma liberdade tirânica em torno do próprio corpo ou uma indiferente comodidade de opinião que livre do difícil trabalho de encarar que o sofrimento pode ser combatido com uma frágil e vulnerável postura que ninguém quer assumir, a postura de quem ama por amar

Como cristão peço que Deus tenha misericórdia de nossa imensa ignorância e nos envie pelo espírito, uma mente e um coração saudável em valores.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s