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Silêncio e Palavra

“O silêncio é parte integrante da comunicação”
Extraído do GaudiumPress.org sobre o artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo

“É muito oportuno, como força educativa, ter presente que o silêncio é parte integrante da comunicação. O falar não precedido ou emoldurado pelo silêncio pode não produzir palavras com densidade e significação. Especialmente palavras que tenham o sentido de edificar, corrigir e devolver ao coração dos destinatários a esperança do viver. A sociedade contemporânea é muito barulhenta e desabituada ao silêncio que proporciona escuta mútua e conhecimento” …

Ao nos calarmos, permitimos que a outra pessoa fale, “exprima a si mesma, livrando-nos, por esta escuta, de ficarmos presos a nós mesmos, nas nossas palavras e ideias”. Conforme o prelado, quando não se faz silêncio e não se permite ouvir o que as outras pessoas tem a dizer, corre-se o risco de incorrer em autoritarismos, fixando-se na própria compreensão, “por vezes até medíocre e comprometedora no que se refere a conquistas e avanços indispensáveis”
‎”‎o silêncio permite à pessoa “uma descida ao fundo de si mesma e abrir-se ao caminho de resposta que Deus inscreveu no seu coração”. De acordo com o prelado, na mensagem escrita pelo Papa existe uma lição que vale ser aprendida e pratica: “Educar-se em comunicação é aprender a escutar, a contemplar, para além de falar. É hora de qualificar a comunicação e o falar. É urgente, para isso, exercitar-se no silenciar para que a palavra dita seja capaz de gerar vida”.

Fonte: http://www.gaudiumpress.org/content/37049–ldquo-O-silencio-e-parte-integrante-da-comunicacao-rdquo—destaca-arcebispo-de-Belo-Horizonte

Artigo de Dom Walmor: http://www.cnbb.org.br/site/articulistas/dom-walmor-oliveira-de-azevedo/9415-silencio-e-palavra

No texto abaixo, Krishnamurti critica a autoridade, qualquer tipo de autoridade, e nos diz que não devemos seguir qualquer mestre. Naturalmente que mesmo esse ensinamento precisa se reconhecido em sua autoridade para que possamos aceitá-lo, já que como cita no texto, somos confusos e divididos quando começamos a buscar alguma coisa. Krishnamurti diz que não deve haver mestre e discípulo, mas também acrescenta algo fundamental que remete ao Evangelho de hoje (16/05/2012). Ele diz: “ A divisão entre o mestre e o pupilo não é espiritual.

Em outras palavras, o mestre é interior e interiormente não existe divisão , é “uno” conosco. No Evangelho de João (16,12-15), lemos “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora.13Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade … 15Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”. ”. Jesus, que vivia uma relação de mestre e discípulo com seus seguidores, sabia que eles não poderiam aprender as “muitas coisas” que precisavam ser ditas enquanto vivesse numa relação dividida. Ele precisaria “ir” para o Pai e enviar o Espírito, habitar em nós, se tornar interior, para nos comunicar pelo espírito tudo aquilo que precisava ser acrescentado ao ensinamento. E o Espírito, que é interior, nos comunicaria toda a verdade. Diz Jesus que “Basta ao discípulo ser tratado como seu mestre” (Mt10, 25), e “Não vos façais chamar de mestres, porque só tendes um Mestre, o Cristo” (Mt 23,10). 

Isso mostra para nós Cristãos que devemos ter cuidado em não seguir autoridades cristãs como mestres em si, meramente por uma autoridade livresca, intelectual ou ostentada. Entretanto não devemos, de forma alguma, desconsiderar a sabedoria dos sábios, o aprendizado dos santos, a razão dos doutores, pois de qualquer forma sempre iniciamos confusos e precisando da orientação dos que nos precederam na busca, na fé e na verdade, pois se existe uma autoridade que deve ser considerada sempre, e é a mesma que apoia a orientação de Krishnamurti, é a autoridade da experiência. Devemos sim, sempre retornar ao silêncio, a meditação, a reflexão, no recolhimento pessoal, para nos colocarmos à luz do verdadeiro mestre interior, o espírito enviado a nossos corações, com tudo o que recebemos como orientação espiritual a partir de fora. O salmista reza, “Senhor, na tua luz, contemplamos a luz”.

Segue o texto:

A autoridade é nociva

Pergunta: Foi nos dito que o pensamento deve ser controlado para gerar aquele estado de tranqüilidade necessário para compreender a realidade. Poderia nos dizer como controlar o pensamento? Krishnamurti: Primeiro, senhor, não siga qualquer autoridade. A autoridade é nociva. A autoridade destrói, a autoridade perverte, a autoridade corrompe; e um homem que segue a autoridade está se destruindo, e destruindo também aquilo que ele colocou na posição de autoridade. O seguidor destrói o mestre, como o mestre destrói o seguidor. O guru destrói o pupilo, como o pupilo destrói o guru. Pela autoridade você nunca descobrirá nada. Você deve estar livre da autoridade para descobrir alguma coisa. Deve estar livre da autoridade para descobrir a realidade. É uma das coisas mais difíceis estar livre da autoridade, tanto a externa como a interna. A autoridade interna é a consciência da experiência, consciência do conhecimento. E a autoridade externa é o estado, o partido, o grupo, a comunidade. Um homem que quer descobrir a realidade deve afastar toda autoridade, externa e interna. Então, não deixe que lhe digam o que pensar. Essa é a maldição da leitura: a palavra do outro se torna importantíssima. O interrogante começa dizendo: “Foi nos dito”. Quem lhe disse? Senhor, não vê que os líderes e santos e grandes mestres falharam, são a causa de você estar onde está? Então os deixe sozinhos. Você os fez falharem porque não está buscando a verdade, você quer gratificação. Não siga ninguém, inclusive eu mesmo; não faça do outro sua autoridade. Você mesmo tem que ser o mestre e o pupilo. No momento em que você reconhece o outro como mestre e você mesmo como pupilo, está negando a verdade. Não há mestre nem pupilo na busca da verdade. A busca da verdade é importante, não você ou o mestre que vai ajudá-lo a descobrir a verdade. Veja, a educação moderna, e também a anterior, ensinou a você o que pensar, não como pensar. Eles puseram você numa moldura, e essa moldura destruiu você; porque você procura um guru, um mestre, um líder, político ou outro, só quando está confuso. De outra forma você nunca segue ninguém. Se você é muito esclarecido, se internamente é uma luz para si mesmo, nunca seguirá ninguém. Mas como você não é, você segue, segue a partir de sua conclusão; e o que você segue deve também ser confuso. Seus antepassados, assim como você mesmo, são confusos, politicamente e religiosamente. Portanto, primeiro, esclareça sua própria confusão, torne-se uma luz para si mesmo, e então o problema cessará. A divisão entre o mestre e o pupilo não é espiritual. Agora o interrogante quer saber como controlar o pensamento. Em primeiro lugar, para controlá-lo, você deve saber o que o pensamento é e quem é o controlador. Eles são dois processos separados, ou um fenômeno unido? Você deve primeiro compreender o que o pensamento é, não deve? – antes de dizer, “Vou controlar o pensamento”; e também deve saber quem é o controlador. Existe um controlador sem pensamento? Se você não tem pensamentos, existe um pensador? O pensador é o pensamento, o pensamento não está separado do pensador, eles são um processo único.

Banaras 5th Public Talk 20th February 1949 The Collected Works Vol. VI

Evagrius Ponticus

Entre os textos semanais da WCCM, Kin Natajara tem falado‎ de Evagrius Pônticus e sua abordagem dos pensamentos e vícios da alma. Foram adicionados dois novos textos traduzidos que podem ser lidos no link abaixo:

Texto da semana de 22/04/2012: Maus Pensamentos :

Evagrius teve profundos insights psicológicos sobre o funcionamento da mente humana. Esses insights, decorrente de pensamentos cuidadosamente examinados, são essenciais para mudança e transformação e foram redescobertos somente no século XIX por Jung e Freud. Agora são uma hipótese aceita pela maioria dos psicoterapeutas e analistas. Muitos dos ditos de Evagrius não estaria de fora dos manuais modernos da psicoterapia… (continuar lendo a tradução / Texto original )

Texto da semana de 06/05/2012: Meditação, caminho para o auto conhecimento :

Segundo Evágrio, existe dois caminhos para identificar nossos próprios ‘demônios’: Pela oração/meditação e pelos esforços para alcançar auto conhecimento e consciência. A “observação dos pensamentos’ tem um importante papel aqui. “Se houver qualquer monge [ser humano] que deseje examinar com medida alguns dos ‘demônios’ mais ferozes … então deixe-o manter um olhar cuidadoso sobre seus pensamentos … deixe-o notar bem a complexidade de seus pensamentos … os demônios que a causam. Em seguida peça à Cristo a explicação de todos os dados que tem observado”… (continuar lendo a tradução / Texto original )

 

Meditar como Abraão

Meditar como Abraão

“Até aqui o ensinamento do stárets fora de ordem natural e terapêutica.  Os antigos monges, segundo o testemunho de Philon de Alexandria, eram, de fato, “terapeutas”.  Seu papel, antes de conduzirem à iluminação, era o de curar a natureza, colocá-la em melhores condições para que ela pudesse receber a graça, a graça que não contradizia a natureza, mas a restaurava e a realizava.  Era isso que o homem idoso estava fazendo com o jovem filósofo, ensinando-lhe um método de meditação que alguns poderiam chamar de “puramente natural”.  A montanha, a papoula, o oceano, o pássaro – tantos elementos da natureza que lembram ao homem que ele deve, antes de ir mais longe, recapitular os diferentes níveis do ser, ou ainda os diferentes reinos que compõem o macrocosmo.  O reino mineral, o reino vegetal, o reino animal…  Frequentemente o homem perde o contato com o cosmos, com o rochedo, com os animais e isso acaba provocando nele todo tipo de doenças, de mal-estares, de insegurança, de ansiedade.  Ele se sente “demais”, estranho e estrangeiro no mundo.  Meditar era primeiro entrar na meditação e no louvor do universo, pois “todas as coisas sabem orar antes de nós”, dizem os padres.

O homem é o lugar onde a oração do mundo toma consciência dela mesma.

O homem está aqui para nomear aquilo que todas as criaturas balbuciam.  Com a meditação de Abraão, nós entramos em uma nova e mais elevada consciência que chamamos de fé, ou seja, a adesão da inteligência e do coração a esse “Tu” ou a esse “Você” que é, que transparece quando chamamos todas os seres pelos seus primeiros nomes. Essa é a experiência e a meditação de Abraão: atrás do estremecer das estrelas, existem mais do que estrelas, uma presença difícil de nomear, que nada pode nomear e que no entanto possui todos os nomes…

É algo maior do que o universo e que, no entanto, não pode ser compreendido fora do universo.  A diferença que existe entre Deus e a natureza é a diferença que existe entre o azul do céu e o azul de um olhar…  Abraão estava em busca desse olhar além de todos os azuis…

Após ter aprendido a sentar, após ter aprendido o enraizamento, a orientação positiva em direção à luz, a respiração apaziguada dos oceanos, o canto interior, o jovem era convidado ao despertar do coração.  “De repente, você é alguém”.  Aquilo que é próprio ao coração, de fato, é personalizar todas as coisas e, nesse caso, personalizar o Absoluto, a Fonte de tudo aquilo que é e respira, nomeá-la, chamá-la de “Meu Deus”, “Meu Criador” e caminhar em Sua presença.

Meditar, para Abraão, é manter, sob as mais variadas formas, o contato com essa Presença.  Essa forma de meditação entra nos detalhes concretos da vida quotidiana.  O episódio do carvalho de Mambré nos mostra Abraão “sentado à entrada da tenda, na hora mais quente do dia” e ali ele vai acolher três estrangeiros que vão se revelar como enviados de Deus.  Meditar como Abraão, dizia o Padre Serafim, “é praticar a hospitalidade, o copo d’água que damos àquele que tem sede, não se afaste do silêncio, ele o aproxima da fonte.”  Meditar como Abraão, você compreende, desperta não apenas em você a paz e a luz, mas também o Amor por todos os homens.”  E o padre Serafim leu para o jovem a famosa passagem do livro do Gênesis onde se fala da intercessão de Abraão:

“Abraão estava diante de YHWH, Aquele que é – que era – que será.”  Ele aproximou-se e disse: “Vais realmente suprimir o justo junto com o pecador?  Talvez haja cinqüenta justos na cidade, vais realmente suprimi-los e não perdoarás a cidade devido aos cinqüenta justos que estão no seu seio…?” Abraão, pouco a pouco, teve que reduzir o número de justos para que Sodoma não fosse destruída.  “Que o meu Senhor não se irrite e falarei uma última vez: talvez encontremos dez justos…” (cf. Gênesis 18, 16)  Meditar como Abraão é interceder pela vida dos homens, nada ignorar da sua podridão e, no entanto, “jamais desesperar da misericórdia de Deus”.

Esse tipo de meditação liberta o coração de todo julgamento e de toda condenação, em qualquer tempo ou lugar; quaisquer que sejam os horrores que você venha a contemplar, ele chama o perdão e a bênção.  Meditar como Abraão nos leva ainda mais longe.  A palavra tinha dificuldade em sair da garganta do padre Serafim, como se ele tivesse querido poupar o jovem de uma experiência pela qual ele próprio tivera que passar e que despertava na sua lembrança um sutil tremor: isso pode nos levar até ao Sacrifício…  e ele citou a passagem do Gênesis onde Abraão se mostra pronto a sacrificar seu próprio filho Isaac.  “Tudo pertence a Deus, continuou o padre Serafim, murmurando.  Tudo é dele, por ele e para ele”; meditar como Abraão o conduz a essa total falta de posse de si mesmo e daquilo que você tem de mais caro… procure aquilo que lhe é mais caro, aquilo com o qual você identifica o seu eu: para Abraão era o seu filho, seu único filho.  Se você é capaz desse dom, desse abandono total, dessa infinita confiança naquele que transcende toda razão e todo bom senso, tudo lhe será dado cem vezes mais: “Deus proverá”.

Meditar como Abraão é não ter nada no coração e na consciência “além d’Ele”. Quando ele subiu até o topo da montanha, Abraão só pensava em seu filho.  Quando ele desceu, ele só pensava em Deus.

Passar pelo cimo do sacrifício é descobrir que nada pertence ao “eu”.  Meditar como Abraão é unir-se pela fé àquele que transcende o Universo, é praticar a hospitalidade, interceder pela salvação de todos os homens.  É esquecer-se a si mesmo e romper os apegos mais legítimos para descobrir-se a si mesmo, nossos próximos e todo o Universo, habitado pela infinita presença “d’Aquele Único que É”

JEAN-YVES LELOUP, Escritos Sobre O Hesicasmo, Ed. Vozes 2003

Lemos no clássico da mística cristã medieval, “A núvem do não saber”, que durante a oração contemplativa, a oração do coração, não devemos seguir qualquer imagem, tão pouco as santas e piedosas. Instrui que ao seguir tais imagens, logo estaríamos “tagarelando” interiormente e não iríamos querer outra coisa, mas por fim a mente também trarria imagens de suas misérias, “de sorte que por fim, sem te dares conta, já te acharás com o espírito disperso nem sabes por onde. E a causa dessa dispersão é que primeiro escutastes de bom grado os pensamentos, e a seguir deste-lhes resposta, acolhimento e rédea solta” (…) “Por isso, todas as vezes que se dispuseres à esse trabalho, e tocado pela graça, sentires que Deus te chama, eleva teu coração para Ele, com humilde impulso de amor. Busca o Deus que te criou e redimiu, e por sua graça te chamou a este trabalho, e não admitas nenhum outro pensamento acerca d’Ele. Aliás, conserva esse mínimo admissível apenas se assim quiseres, pois basta uma intenção nua, voltada diretamente para Deus, sem nenhum outra causa além d’ Ele. E se quiseres envolver e encerrar essa intenção num só vocábulo, para melhor a reteres, escolhe uma palavra que seja curta… e prenda essa palavra ao coração, de modo que nunca dali se afaste, aconteça o que acontecer”. (Pag. 48, Ed Vozes , 2 Edição)

Mas é importante ressaltar que ele se refere ao momento da oração contemplativa, seja qual for a forma. Seja a oração de jesus, ou abordagens mais contemporâneas como a meditação cristã, a oração centrante, e outras formas orientais. Na hora do que o autor chama de hora do trabalho, a imagem pode ser uma grande armadilha ao enraizamento, a profundidade em direção ao solo do nosso ser. Entretanto as imagens são fundamentais e necessárias para a liturgia e para a Lectio Divina. O salmista diz que Deus está presente até mesmo em seus pensamentos e contudo, nas imagens. As imagens também são uma forma de comunicação com o espírito de uma forma mais discursiva, mais adequada a elaboração e conhecimento das nossas necessidades e expectativas ante Deus, que é uma dimensão naturalmente humana e portanto legitima a dignidade da nossa condição de filhos.

Se lutarmos contra as imagens, numa euforia de transcendência, poderemos estar simplesmente exercitando um orgulho espiritual que rejeita a dimensão humana para ficar apenas com a possibilidade de comunhão divina, como se em nossa atual condição a carne e o espírito não coabitassem na realidade com suas formas e estágios próprios de maturidade. Uma criança não aprenderá uma especialização que não está intelectualmente preparada, da mesma forma o espírito não poderá chegar a níveis mais profundos da verdade enquanto não aceitar e viver seu atual estágio de maturidade. Não podemos tomar atalhos espirituais, nos alertam os místicos cristãos.

Quanto a isso, o autor diz, no mesmo capítulo: “Se alguém pretender chegar à contemplação sem antes passar muitas vezes por doces meditações sobre a própria miséria, sobre a Paixão, sobre a bondade, a grande benevolência, e a dignidade de Deus, cometerá certamente um erro, e falhará no seu propósito”

As imagens podem nos trazer grandes insights acerca da realidade do mundo e ser fonte de auto conhecimento e abertura para um proceder que louve a Deus. Mas novamente precisamos voltar a oração contemplativa para aprendermos a sermos independentes. Livres de toda imagem e de toda linguagem, afim de sabermos, como nas palavras de John Main, que não somos nós que sustentamos a Deus, mas Deus é que nos sustenta, com todas as nossas imagens e linguagem.

O autor continua:  ”Mesmo assim, no entanto, também a pessoa que tiver exercitado longamente essas meditações, deverá abandoná-las e mantê-las afastadas muito lá no fundo, debaixo da núvem do esquecimento, se alguma vez quiser furar a núvem do não saber que se acha entre ela e o seu Deus.”

Oração Bizantina:

“Ó Luz Serena, que brilha no
Solo do meu ser,
Atrai-me para ti,
Tira-me das armadilhas dos sentidos,
Dos Labirintos da mente,
Liberta-me de símbolos, de palavras,
Que eu descubra
O Significado
A Palavra Não Dita
Na escuridão
Que vela o solo do meu ser. Amém.”

Meditação e Pecado

Compreender e reconhecer o que é pecado para nós ou, para os não religiosos, o que for correlato a essa ideia, parece muito importante para viver realmente o presente em sua plenitude. O pecado não traz o castigo, isso é um erro de leitura para rejeitar mais facilmente esse aspecto, mas o pecado trás a graça, como diz São Paulo, “onde o pecado abundou, superabundou a Graça”. Na liturgia de Vésperas desse terceiro domingo da quaresma, o hino de entrada, nos diz que a consciência do pecado nos torna mais humildes e trás a experiência da misericórdia divina. Mas existe ai uma luta para nos desapegar de nós mesmos, pois se fosse algo fácil, viveríamos nos deleitando em erros para viver na Graça.

Acho que a meditação ou a oração revela bem essa relação entre pecado e distração quando através delas experimentamos como que uma luta para nos manter concentrados em Deus. Essa dificuldade de concentração, essa experiência de ser levado pelas distrações durante a meditação ou a oração, ou como diria Max Picard, essa “Fuga do Eu” através do medo do silêncio, não é um castigo divino contra nosso pecado, mas é uma oportunidade de encararmos e superarmos os ecos de nossos erros, que obstruem a experiência de que vivemos da Graça de Deus constante e eternamente. E aderimos a essa oportunidade através de um esforço que, talvez possa ser dito, se assemelha a experiência de Elias no monte à esperar por Deus.

Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.” - 1 Reis 19:11-12

Quando fechamos nossos olhos para orar, meditar, ou entrar em contato com Deus da nossa forma, não devemos esperar que seja algo simples e imediato. Sim, Jesus disse que o que fosse pedido nos seria dado, mas também disse que Deus é Pai, e qual o Pai que dará uma barra de chocolate para o filho comer no almoço, ainda que assim peça o filho entre lágrimas? Precisamos estar aprofundados para reconhecer certas coisas em nossas vidas e esse aprofundamento não é muito diferente da experiência de Elias no fundo da caverna no alto da montanha à espera.

Afirmar que o pecado é a origem de nossa distração em relação a unidade é algo que pertence a muitas tradições e isso não é para ser remediado com atalhos, dramas, e tão pouco será perenemente remediado. Viver presente é uma peregrinação que sempre nos leva, em algum momento, novamente para onde estamos. Mas não conseguimos continuar onde estamos, no aqui e agora, por causa da distração causada pelo nosso constante estado de pecado.

A distração, a fuga do eu, é uma forma muito efetiva de nos manter elevados e fortes para continuarmos errando com o aval da consciência. Entretanto ao tomarmos consciência do pecado, do erro, falta ou como quer se chame, e através dessa consciência nos humilharmos da altura que talvez tenhamos nos colocado, então estamos no caminho diário que nos leva da distração para a vida no momento presente. Não nos é pedido que nos humilhemos diante da vontade dos outros, mas diante da nossa própria incapacidade de sermos mais abertos e disponíveis. Isso não é algo a se lamentar pois todos temos e continuaremos tendo limitações, se fosse diferente talvez estivéssemos envolvidos em algum complexo de superioridade, mas é algo a nos manter conscientes de nossa distração, de nossos pecados, e continuarmos peregrinando rumo a um coração mais puro.

Talvez esse seja um erro no entendimento imediato na oração e da meditação, achar que através dela estaremos usando de um atalho para a Paz Interior, para a Fortaleza, para a Salvação, para a Sabedoria ou Iluminação. Mas acho que todo aquele que está num caminho de oração percebe logo o fogo, o terremoto, o vento forte, tão logo supere os devaneios iniciais onde foram projetadas toda sorte de ilusões. A brisa na qual Deus nos fala não é a empolgação inicial da caminhada. Essa brisa não vem de Deus, vem de um ventilador de imagens. Mas tanto quanto perseveramos, tanto mais avançaremos em direção ao momento presente, a realidade do agora de Deus, sem atalhos, pois muito pelo contrário, o caminho da oração é estreito e muitas vezes pedregoso. Mas nele sentimos que somos sustentados e não que nos sustentamos, sempre que nos percebemos, ainda que numa faísca do tempo, sob a graça inexprimível de Deus.

Entre tantos “talvez”, a única certeza é a de que Deus sendo amor não castiga o pecado, mas envia sua Graça aos que à ela estão abertos. E nos abrimos à ela purificando os olhos do coração.

Conflitos

‎”Opostos criam conflitos, e o conflito nos assusta, pois parece ser uma perda da paz. Na verdade, o conflito, suportado corretamente e sem violência, é a maneira de aprofundar nosso conhecimento da “paz que excede toda a inteligência”. Confrontado com as contradições e fracassos da vida, o espírito nos convoca a aceitá-los e integrá-los, em um nível mais profundo do que a mente comum, em vez de negar e fugir deles como somos tão facilmente tentados fazer. Rejeitar ou negar o paradoxo em nossa vida é trágico mas também, muitas vezes, contém um traço do absurdo (…) a menos que consigamos ver a diferença entre paradoxo e fracasso condenamo-nos a repetir os padrões de auto-rejeição e desespero. Ver nosso próprio absurdo em lidar erradamente com os problemas da vida pode levar-nos a sabedoria.

Precisamos apelar para a sabedoria que vive mais fundo do que a dor em nossa alma. Como Simone Weil disse, sob nossos mais profundos lamentos está a pérola do silêncio de Deus. A sabedoria nos convoca a suportar e nos dá forças para além do horizonte de nossas expectativas. Mas esta é uma luta, e o sucesso é pouco provável se estivermos completamente sozinhos”

Trecho da carta de D. Laurence Freeman no boletim internacional de Dezembro de 2011 para a Comunidade Mundial para Meditação Cristã.

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